quarta-feira, novembro 28, 2012

Novidades sobre a insônia

Insônia é uma síndrome, sendo causada por várias condições. Define-se a insônia não somente como a incapacidade de dormir, mas também o sono entrecortado, mal dormido ou não reparador. Em qualquer situação, a insônia causa prejuízos que ultrapassam os danos econômicos e laborais, mas causa também sérios problemas na saúde como um todo, podendo mesmo levar a depressão e ansiedade.

Sendo uma síndrome, não há um tratamento padrão para todos os pacientes com insônia, e a forma de tratar depende da causa, seja ela psíquica (depressão, psicopatias, transtornos de ansiedade), tabagismo, estresse, doenças clínicas, estado confusional agudo, ou mesmo a insônia primária, sem causa definida. 

Neste sentido, acaba de sair um estudo publicado hoje na mais famosa revista de neurologia do mundo, a Neurology, sobre uma nova medicação para tratamento da insônia. O site encontra-se aqui para os interessados em ler o original, e que sabem inglês.

O nome da nova droga é suvorexant (isso mesmo!), um bloqueador de um grupo de substâncias produzidas no hipotálamo chamadas de orexinas, ou hipocretinas, que regulam a vigília e a saciedade. Em tempo, é a diminuição na produção de orexina por lesão provavelmente imune-mediada (autoimune) que leva à rara doença chamada narcolepsia, onde há um excesso anormal de sono com alterações de tônus muscular. 

O uso desta droga aumentou o tempo em que pessoas passaram dormindo durante a noite, de acordo com o estudo que envolveu 254 pessoas de 18 a 64 anos de idade em boa forma física e mental, mas que possuíam insônia primária, ou seja, sem causa definida. 

O estudo durou 8 semanas, e foi controlado com placebo (a necessidade de um placebo nestes estudos deve-se à necessidade de comparar a droga em estudo a uma substância inócua, sem efeito, o placebo [placebo não é uma substância específica, mas qualquer medida ou substância sem efeito clínico], que geralmente é administrado em comprimidos iguais aos da medicação em estudo para que nem o participante nem o pesquisador saibam quem está tomando o quê - ou seja, o que se chama de estudo duplo-cego - isso aumenta o poder estatístico do estudo, e é uma exigência para estudos deste porte no mundo todo).

Os autores sugerem que este estudo pode demonstrar que esta droga pode ajudar pacientes com insônia. Dizem os autores que não houve efeitos colaterais significativos, o que é uma boa notícia. 

Mais estudos estão sendo conduzidos para conhecer todo o perfil da droga e os pacientes mais adequados a fazer uso dela, e ainda não há previsão de chegada no mercado brasileiro. 

Bem, pelo menos mais uma boa notícia para quem sofre de insônia. Agora, é esperar para ver. 







sexta-feira, novembro 23, 2012

O que é o Doppler transcraniano?

Você já leu a respeito do Doppler de carótidas e vertebrais, usado no diagnóstico de doenças vasculares do cérebro (AVC) (leia mais aqui).

Mas hoje vamos falar de outro exame, que usa as mesmas técnicas descritas para o Doppler de carótidas e vertebrais, o Doppler transcraniano. 

Mas em vez de escrever, vamos mostrar um vídeo produzido pela Clínica Vita, das minhas amigas Dra. Simone Amorim e Dra. Rejane Macedo  (o site da Clínica Vita pode ser visualizado aqui).

O vídeo foi-me gentilmente cedido pelas colegas acima.

Para entender melhor o vídeo, leia antes o post acima sobre Doppler de carótidas e vertebrais, e veja no blog sobre artérias cerebrais. 

Aproveitem:


segunda-feira, novembro 19, 2012

O que é um hematoma cerebral?

Não utilize estas informações para diagnóstico. Este post é meramente informativo. Na existência de sintomas, procure um médico. 

Hematoma é a palavra usada para denominar sangramento dentro de um tecido, podendo ser qualquer órgão do corpo. A palavra vem do grego αἷμα (haemasangue, e -ομα (-oma) tumor (referência), ou seja, uma tumoração de sangue. O hematoma cerebral é a presença de uma coleção anormal de sangue dentro da caixa craniana. 

O cérebro e a medula espinhal são revestidos por membranas, as meninges. Temos a mais externa, a dura-máter, que se liga à parte interna do osso, a intermediária ou aracnóide, e a membrana interna ou pia-máter, que se liga ao próprio sistema nervoso. Observe as meninges abaixo:

http://www.igc.gulbenkian.pt/sites/soliveira/img/meninges.jpg
Já o próprio cérebro, como já discutido neste blog, possui uma área mais externa, chamada de córtex ou substância cinzenta, e uma área mais interna, chamada de substância branca. Além disso, há núcleos de substância cinzenta dentro da substância branca, formando os núcleos ou gânglios basais. 

Observe abaixo:

http://www.guia.heu.nom.br/images/Cortex2.jpg
Esta figura acima demonstra um cérebro, coma parte mais externa ou córtex, a substância branca formada por tratos e vias, e os núcleos centrais, entre eles o tálamo (já discutido neste blog).

Muito bem, esta introdução é necessária para discutirmos sobre os hematomas cerebrais. 

Os hematomas, ou hemorragias, cerebrais podem ser intraparenquimatosos (parênquima cerebral é a própria substância do cérebro, e intraparenquimatoso, em relação ao cérebro [isso por que outros órgãos possuem parênquima], é tudo aquilo que ocorre dentro da substância do cérebro) e extra-axiais (ou seja, aqueles que ocorrem fora do parênquima cerebral).

Os extra-axiais são o hematoma epidural (ou extra-dural) e o subdural. A hemorragia subaracnóidea não é um hematoma, por que o espaço subaracnóide é preenchido pelo líquor ou líquido céfalo-raquidiano, e portanto não se acumula como as outras formas de hemorragia. Ela será discutida em outro post.

Os hematomas intraparenquimatosos cerebrais podem ser corticais ou subcorticais, se ocorrem na córtex ou no espaço subcortical cerebral. Mas há também os hematomas do cerebelo (cerebelares) e do tronco cerebral, mais frequentemente na ponte. Observe abaixo a ponte e o cerebelo:

http://www.brainexplorer.org/brain-images/pons2.jpg
O hematoma epidural em geral ocorre após traumas cranianos, e é uma emergência neurocirúrgica. Pode causar desde alterações de consciência até coma. Observe abaixo um hematoma epidural e o efeito que ele faz sobre o cérebro, deslocando o parênquima cerebral:

http://sportmedi.ru/wp-content/uploads/2009/01/Epidural-hematoma.jpg
Na tomografia, o hematoma é esta área esbranquiçada em forma de meia-lua. Este é um hematoma agudo, de horas de duração, pois é muito hiperdenso (branco) na tomografia. Observe que os ventrículos (espaços negros cheios de líquor) estão sendo rechaçados para o lado direito na tomografia (que é o lado esquerdo do paciente).

Já o hematoma subdural pode ocorrer por vários motivos, como traumas cranianos após acidentes ou quedas, ou mesmo espontaneamente em pessoas idosas. A evolução pode ser rápida, aguda, ou crônica (em meses), e pode levar desde alterações agudas da consciência até sintomas mais arrastados como demência, perda de memória, dificuldade para andar, déficits motores simulando derrames, alterações de fala e problemas para urinar (incontinência urinária, ou dificuldade de segurar a urina). O diagnóstico, como no caso do hematoma epidural, é pela tomografia. 

Observe abaixo um hematoma subdural:

http://www.uiowa.edu/~c064s01/nr042%20copy.jpg
Observe que, diferente do hematoma epidural, o hematoma subdural tem a forma côncava, podendo ser branco (hiperdenso) quando agudo, até escuro (hipo ou isodenso) quando crônico. Observe mais abaixo:

http://www.radiology.co.uk/srs-x/tutors/cttrauma/images/sub2.jpg
Acima um hematoma crônico (hipodenso) em forma de lente côncava. 

Observe mais abaixo uma figura de um cérebro de verdade com um hematoma subdural:

http://neuropathology-web.org/chapter4/images4/4-3L.JPG
Observe o efeito que o hematoma faz sobre o cérebro.

Dependendo da evolução e da rapidez de crescimento do hematoma, ele pode causar sintomas agudos ou crônicos, de longo prazo.

Já os hematomas intraparenquimatosos são classificados como os derrames ou AVC's hemorrágicos, e já foram discutidos em tópico anterior (leia aqui).

sábado, novembro 10, 2012

Os nervos periféricos - A mielina


O seu corpo possui nervos, nervos estes que saem da medula (se forem nervos motores, ou seja, que promovem movimentação muscular) ou que entram na medula (se forem sensitivos, ou seja, carregam informações de sensibilidade, seja de temperatura, tato, dor, posição no espaço ou vibração).

Os nervos estão presentes no corpo inteiro, mesmo nas pontas de seus dedos. E há nervos grandes e pequenos. 

Os nervos podem ser didaticamente classificados em mielinizados e não mielinizados. A mielina é uma substância gordurosa (fosfolipídeos) que nos nervos é produzida por uma célula chamada de célula de Schwann, e que reveste a maior parte dos nervos. Observe abaixo:

https://anatomyphysiology2009-10.wikispaces.com/file/view/I10-75-myelin.jpg/119534713/I10-75-myelin.jpg
Observe que o nervo, neste caso identificado como o axônio do neurônio, é revestido por camadas e mais camadas de mielina, e que a célula de Schwann enrola-se por sobre o axônio (observe o núcleo da célula, em azul, na parte superior à direita).

Observe ainda abaixo:

http://www.healthcentral.com/common/images/9/9682_9613_5.jpg


http://www.daviddarling.info/images/myelin_sheath.jpg
Observe que a mielina reveste o nervo de forma descontínua, ficando espaços sem mielina entre os segmentos mielinizados. Estes espaços são chamados de nodos de Ranvier. 

Observe ainda mais abaixo:

http://kvhs.nbed.nb.ca/gallant/biology/schwann_myelin.jpg
O nodo de Ranvier localiza-se entre as camadas de mielina. E qual a função dele? Melhor ainda, qual a função da mielina??

Bem, vamos por partes:

Quantos tipos de dor você conhece (e se conhece, é por que já os sentiu, certo?)? Vamos usar um exemplo prático, do seu dia-a-dia. Que tal uma cólica? Vamos lá. Quando você está tendo uma dor de barriga, não importa a causa, você consegue apontar exatamente com o dedo o local da dor, dizer onde ela está exatamente? Sua resposta provavelmente será não! E por que? Por que a cólica faz parte da sensibilidade dita protopática, ou seja, a sensibilidade mal localizada, mal definida. É o mesmo tipo de dor que ocorre após uma queimadura no dedo. A primeira dor é intensa, aguda, rápida, bem localizada. Mas depois, fica uma dorzinha chata, mal localizada, no dedo todo, certo? (Não tente fazer isso em casa!). 

Muito bem, a dor mal localizada é transmitida por fibras nervosas, nervos, que propagam o estímulo (a dor) de forma lenta, bem lenta. E estes nervos ou possuem pouquíssima mielina, ou nenhuma mielina, ou seja, são não mielinizados. 

Observe abaixo um nervo destes:

http://2.bp.blogspot.com/-JZ9fv3Fk52w/Tx803rRnBHI/AAAAAAAAAFs/Bz35n5soaBk/s1600/Neuron.jpg
Já a dor bem localizada, a dor aguda, fina, que você identifica o local com o dedo, exatamente, além do tato fino, o tato das mãos, a sensibilidade fina dos dedos, a vibração e a posição do corpo no espaço (classificados como sensibilidade epicrítica) e mesmo as informações motoras para movimentação muscular, e sua saída e propagação ao sistema nervoso central, é feita por nervos grossos, que transmitem a sensibilidade de forma rápida, ligeira. E isso somente ocorre através da mielina. Mas como?

Observe abaixo o que ocorre em seus nervos mielinizados:

http://www.carlosdinares.com/wp-content/uploads/2012/02/myelin.png
Nos nodos de Ranvier, ficam grandes quantidades de canais de sódio, os responsáveis pelo famoso potencial de ação, o desequilíbrio químico e elétrico entre a célula e o meio onde ela está, e que inicia e propaga o estímulo elétrico em todas os organismos vivos. E assim, o estímulo não precisa percorrer o nervo todo, mas sim os nodos de Ranvier, fazendo-se, logo, uma condução rápida do estímulo, ou seja, o que chamamos de condução saltatória. 

Observe abaixo uma alegoria do que estou falando:

http://www.ms-gateway.ie/html/images/upload/Picture3.jpg

Nestes nervos grossos (que carregam a sensibilidade epicrítica e a informação motora), a velocidade de propagação do sinal nervoso é de cerca de 400 km/hora. Use a sua altura como distância para calcular o tempo que um estímulo na ponta de seu dedinho do pé leva para subir ao cérebro e ser processado em dor. 

Observe mais abaixo:


http://antranik.org/wp-content/uploads/2012/04/conduction-in-a-myelinated-nerve-fiber-saltatory-conduction.jpg
Observe acima uma figura demonstrando a condução saltatória. Seu corpo é realmente maravilhoso, e funciona muito bem.